Sem mais blues!

Sem mais blues!

Chega de Saudade é a canção seminal da Bossa Nova. Tom compôs a música e entregou para Vinicius escrever a letra. Li que levou um tempo até ele conseguir colocar uma letra nessa música. Precisamos ser honestos: ela tem uma harmonia complexa e você precisa ser um gênio como Vinicius para criar uma poesia tão bonita quanto essa hahahaha

Poderíamos falar dos acordes complexos, do uso extensivo de tétrades, notas de tensão (como nonas e décimas-terceiras) e acordes diminutos ou alterados. Mas também das transições rápidas de tonalidade, que exigem precisão no ouvido e nos dedos do músico. E então entra João Gilberto, com sua divisão rítmica sincopada. Às vezes, o que parece simples é mais profundo do que imaginamos.

Ruy Castro escreveu em Chega de Saudade[o livro biográfico] que a esposa de Vinicius, depois de ouvir a música pronta, disse algo como: “você não acha que isso é meio bobo?”, referindo-se a “pois há menos peixinhos a nadar no mar, do quê beijinhos que eu darei na sua boca” . Vinicius, depois de longos dias tentando compor a letra, simplesmente respondeu: “pare de ser tão elegante, mulher” hahahah (pessoalmente, EU AMO essa história).

Sim, é bobo. No entanto, essa não é uma música simples. E colocar uma letra nela foi um DESAFIO enorme. Anos depois, Vinicius escreveu: “Acho que em toda a minha vida de letrista nunca levei uma surra assim.”

A música tem uma estrutura de chorinho. A melodia foi originalmente composta com a densidade e o espírito de um “choro lento”, dividida em três partes. Esse formato instrumental tinha muitas notas rápidas e frases musicais longas, que não permitiam espaços naturais para pausas de respiração ou transições fáceis entre as palavras, sabe?

A primeira parte da música é melancólica e dolorida (em tonalidade menor), enquanto a segunda metade se abre de uma maneira ensolarada e alegre (em tonalidade maior). Vinicius precisava criar uma narrativa poética que acompanhasse essa virada existencial, fazendo a transição perfeita do lamento doloroso da solidão para a celebração quase infantil e eufórica da volta do amor.

Para quebrar a rigidez da métrica longa, o poeta introduziu expressões coloquiais no final da letra, como “que é pra deixar desse negócio de você viver sem mim”. Encaixar termos cotidianos e rítmicos sem perder a elegância poética exigia um trabalho verbal minucioso.

Bom, poderíamos falar muito sobre essa música, mas hoje o que me veio à cabeça foi sua tradução americana No More Blues.

Ela foi escrita por Jon Hendricks e Jessie Cavanaugh. E, diferentemente do meu ponto de vista positivo sobre How Insensitive, eu basicamente odeio essa versão… São palavras duras, eu sei…

QUEM SOU EU? Hahahhaah Eu sei, eu não sou ninguém para criticá-la, mas ela altera radicalmente o sentido poético original de Vinicius de Moraes, transformando um doloroso samba-canção sobre a ausência e o desejo de reconciliação em um relato genérico sobre viagens e o retorno para casa. Chega de Saudade fala de dor, oração, peixinhos no mar e milhões de abraços para curar o sofrimento de viver sem a pessoa amada.

“No More Blues” se concentra em viajar pelo mundo, retornar à cidade natal e deixar a melancolia para trás (“I’m going back home”, “no more tears”). O termo intraduzível “saudade” desaparece completamente, substituído por uma referência literal e simplista ao gênero musical americano blues…

Sim, eu concordo que, para alcançar sucesso comercial na América, as músicas precisavam de letras em inglês adaptadas à métrica do jazz. Mas, como o próprio Tom comentou durante sua vida, lamento que a poesia sutil de parceiros como Vinicius e Newton Mendonça às vezes se perca na tradução ou seja substituída por uma ideia simplificada do que a música brasileira deveria soar e transmitir no exterior.

Talvez esse seja o paradoxo de traduzir a música brasileira: quanto mais você tenta traduzir as palavras, mais pode se afastar daquilo que as tornou bonitas em primeiro lugar. E, na bossa nova, aquilo que não é dito… a delicadeza, a intimidade, a maneira particular de expressar amor e saudade, muitas vezes é tão importante quanto aquilo que está efetivamente escrito.

É por isso que Chega de Saudade nunca poderá ser simplesmente No More Blues. Há algo em saudade que resiste à tradução. E talvez seja justamente por isso que a versão original ainda mereça ser ouvida em português.