Pelo interfone com João

Pelo interfone com João

Talvez eu tenha tido o maior delírio da minha vida hahaha

Eu estava ouvindo Pelo Interfone, do Cícero, cantor brasileiro. É uma inspiração e uma homenagem inconfundíveis à Bossa Nova e aos seus artistas, especialmente quando ele menciona o disco do Tom Jobim.

O ponto do meu delírio é: eu realmente acredito que isso seja uma conversa com João Gilberto!!!

Primeiro de tudo, se você nunca ouviu falar sobre o canal de contato favorito do João… bem, era o telefone. É sabido que João não gostava muito de sair de casa, exceto para os seus shows (nosso excêntrico senhor, sempre hahaha). João costumava passar muito tempo conversando e tocando com os amigos pelo telefone.

Ruy Castro conta, em um de seus livros, sobre um cara que morava no mesmo prédio que João Gilberto (e descobriu isso hahaha). Então, ele se sentiu à vontade para ligar para João pelo interfone.

João, um cavalheiro, foi gentil nas primeiras vezes. Mas o cara, seu super fã, simplesmente não parava de ligar. Então, nosso senhorzinho ligou de volta pelo interfone e disse algo como: “Olha, por favor, se somos amigos… estou ligando para pedir que você nunca mais me ligue”. João não queria mais ser incomodado, mas a principal mensagem que o cara recebeu foi: “EU SOU AMIGO DO JOÃO” hahahaha

Não posso negar que entendo a felicidade dele naquele momento hahaha

A letra da música diz:

Fala pra ele que ele é um sonho bom
Que mudou o tom da tua vida
Comprida
Fala pra ele do disco do Tom Jobim
Do seu apelido e de mim
E chora

Ah, Dindi
Se tu soubesse
Como machuca
Não amaria mais ninguém

Fala pra ele que a vida é um balão
Pra cuidar do seu coração
E chora
Pra onde elas vão?
Embora

Ah, Dindi
Se tu soubesse
Como machuca
Não amaria mais ninguém

Ah, Dindi
Se tu soubesse
Ah, se tu soubesse
Não contaria pra ninguém

Fala pra ele o que nunca falou pra ninguém
Pra ele também

E então vem a parte que me deixa completamente convencida (ou completamente insana hahah): quem é essa pessoa do outro lado do interfone?

Alguém a quem estão mandando falar sobre o disco do Tom Jobim. Alguém cujo apelido importa. Alguém com quem existe intimidade suficiente para dizer coisas que você “nunca contou a ninguém”. Alguém que parece estar longe, inalcançável, quase como uma memória.

E então eu pensei: João.

Talvez não seja João Gilberto. Talvez Cícero tenha simplesmente criado um personagem, um amante, um amigo, um fantasma… alguém que mora do outro lado do interfone e recebe todas as coisas que não podem ser ditas diretamente.

Mas, depois que me lembrei da relação do João com o telefone, eu não consegui mais deixar de ouvir a música desse jeito.

Eu gosto de imaginar que a música seja uma pequena conversa fictícia com ele. Que, em algum lugar do Rio, atrás de um daqueles interfones antigos, esteja João Gilberto do outro lado, ouvindo alguém falar sobre Tom Jobim, sobre discos, sobre amor e, eventualmente, pedindo, muito educadamente, para ser deixado em paz.

E, sinceramente? Se o Cícero não escreveu essa música sobre João, eu nem quero saber.

Eu prefiro o meu delírio hahahah

Afinal, a Bossa Nova sempre teve alguma coisa de sussurro. As coisas raramente são ditas diretamente. Elas são sugeridas, tocadas baixinho, deixadas no ar…

Talvez seja por isso que eu tenha ouvido a voz do João do outro lado do interfone.

Ou talvez eu só quisesse ouvi-la.

De qualquer forma, eu liguei.

E João atendeu. 🙂